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sábado, 17 de fevereiro de 2018

Giordano Bruno - Infinitos Mundos

Giordano Bruno - Mártir da Liberdade

Infinitos Mundos - Infinitos Sonhos

Giordano Bruno nasceu na Itália na cidade de Nola (próximo a Nápoles) em 1548 e seu nome de batismo era Felippo Bruno. Desde cedo, era um buscador de respostas e aos 13 anos começa seus estudos na escola do monastério São Domingos, local onde São Tomás de Aquino havia vivido e ensinado. Aos 17 anos ingressa na ordem dos pregadores, por onde se dedica por 10 anos, e se torna sacerdote e doutor em Teologia em 1575. Seus estudos foram direcionados aos ensinamentos de Aristóteles e Tomás de Aquino, que sustentavam a fé católica.

Agora, com o novo nome de Giordano Bruno, dado após a entrada no seminário, foi aos poucos chamando a atenção da hierarquia da igreja, pois criticava o modelo aristotélico de forma aberta e direta. Mesmo com o direcionamento da escolástica para Aristóteles e Tomás, Giordano buscou beber em outras fontes, como: Virgílio, Lucrécio, Cícero, Ovídio, Sêneca, Raimundo Lullio, Heráclito e Demóstenes. Porém as influências mais fortes vieram da Filosofia de Platão e Plotino, do conhecimento de Copérnico e do saber de Hermes Trimegisto, que era divulgado Marsílio Ficino.


Perseguido por defender ideias contrárias aos dogmas estabelecidos e de fazer isso de forma nada polida, Giordano se vê obrigado a sair do convento, começando sua vida de peregrinação pela Europa e desbravando a “era das trevas” com a luz da Sabedoria de Platão e Hermes.

Ao sair da Itália, deixou o hábito de monge. Começou a ganhar a vida revisando textos, mas devido a conflitos com um professor local, necessitou continuar emigrando. Seguiu por Suíça, Inglaterra, França, Alemanha e voltou à Veneza em 1592. Em Londres, dedicou-se a ensinar na Universidade de Oxford, onde ministrou aulas sobre a cosmologia de Nicolau Copérnico, atacando o sistema aristotélico. Depois de várias discursões, abandonou Oxford e rumou para a França, onde, em 1585, após um debate público em uma universidade, foi ridicularizado, atacado fisicamente e, por fim, expulso do país.

Retornou a Veneza por convite do Conde Giovanni Moncenigo, que estava interessado na sua arte da memória. Giordano se hospedou na casa do mesmo, mas o conde não ficou contente com o resultado, pois além de necessitar recuperar uma memória já debilitada, sua intenção era aplicar em seus negócios. Após discussão, Moncenigo trancou Bruno no sótão e chamou a santa inquisição. Giordano foi preso, e começaram assim seus 08 anos de martírio.

No ano seguinte, foi entregue a Santa Inquisição Romana, onde foi lançado nas masmorras e sujeito a torturas para quebrar suas convicções e assim negar o que ensinava. Essas tentativas de dobrar o filosofo duraram setes anos. Nesse período, ele se defendeu, e segundo os autos, sempre com mais convicção e argumentos lógicos, apesar de seu corpo se deteriorar cada vez mais. Bruno defendeu-se negando qualquer interesse pessoal em questões teológicas, reafirmando o caráter filosófico das suas afirmações. Foram-lhe dadas duas oportunidades para se retratar, mas ele não o fez. É então condenado a morrer na fogueira, o que acontece no dia 17 de fevereiro de 1600. Conta a história que, quando sua sentença foi lida, ele se dirigiu aos seus juízes dizendo: “talvez vocês, meus juízes, pronunciem esta sentença contra mim com maior medo do que eu ao ouvi-la”.


As Acusações

 Giordano foi acusado pelo santo oficio e abaixo, podemos ver a lista de “injúrias”  das quais fora acusado o Filósofo:

· Sustentar opiniões contrárias à fé católica e contestar seus ministros;
· Defender posições contra a Trindade, a divindade de Cristo;
· Defender posições contra a virgindade de Maria, mãe de Jesus;
· Defender posições contra a Transubstanciação (hóstia/Vinho que se transformam no corpo/sangue de Cristo na missa);
· Defender a existência de infinitos mundos e suas eternidades;
· Acreditar em metempsicose e na transmigração da alma;
· Envolvimento com magia e adivinhação.

Trechos de suas obras, que foram pontos-chave das acusações:

“A Alma do Universo é o Principio criador e constitutivo do mundo... Deus está em cada folha de erva, em cada grão de areia e em cada partícula que flutua no ar... A Mente universal encontra-se em todas as coisas, pois tudo o que existe, tanto a matéria como o espírito, é divino... A mesma força que se manifesta no espaço infinito vive também na menor de cada uma das partículas.Tanto o maior como o menor são uma mesma coisa, pois cada átomo é em si mesmo o espelho do universo inteiro...As coisas diferem entre si, unicamente em relação aos corpos através dos quais se manifestam, pois no fundo todas as coisas são uma mesma coisa. Dai que, se pudéssemos destruir um só átomo, poderíamos também destruir o Universo inteiro. São seus diferentes corpos, o que faz com que as almas pareçam superiores umas das outras. No fundo, todas as almas são uma mesma alma.”

“Só é feliz quem vê as coisas com os olhos da razão...Não são os sentidos senão a razão o princípio da verdade....O objetivo da vida é alcançar a verdadeira sabedoria, a verdadeira moral, a verdadeira justiça, a libertação de nossa unidade com Deus...”

Mártir da liberdade de expressão

Principais Ideias


Podemos resumir as ideias do Giordano Bruno nos seguintes itens:

· Existem outros mundos além do nosso. O universo está constituído por muitos mundos semelhantes à Terra, dessa forma, o nosso planeta não é o centro do universo;
· O universo é infinito no espaço e no tempo. De acordo com isto, a ideia de pontos fixos no espaço ou no tempo deve ser relativa a outros pontos considerados como fixos;
· Sua ética pode ser resumida na seguinte escala de valores: Verdade, prudência, sabedoria, a lei que regula o comportamento das pessoas e a força do espírito que é a virtude interior;
· Deus é o objeto de estudo da filosofia e para tal a Natureza (universo) é o grande laboratório;
· A memória como ferramenta para entender a multiplicidade do universo e sua unicidade.
  
Terra centro de Universo

 Influência Platônica


Bruno resgata a ideia de Platão sobre o universo e o entende como um grande ser vivo, onde cada elemento está conectado como as contas de um colar, e essa organização é fundamentada pelas ideias que são princípios eternos e imutáveis. Cada elemento do universo, por menor que seja, não passa de uma imitação ou sombra da realidade ideal que a direciona.

Nós, seres humanos, também seguimos esse ordenamento universal e nossas ideias não são eternas e imutáveis, mas são o reflexo, o fantasma das ideias que não se alteram. Mesmo sendo a sombra de algo imutável, através das ideias podemos chegar ao verdadeiro conhecimento se encontrarmos um método que consiga assimilar e compreender a complexidade da realidade. Esse método  deve ter a capacidade de entender essa estrutura universal ideal que sustenta todo universo.

Para o nolano, a memória é a ferramenta para entender a unicidade e a multiplicidade do universo.

A importância da Arte da Memória e da imaginação

A memória nos permite impedir que nossa mente se confunda com o grande número de coisas que existem no universo e com os conceitos e representações dessas coisas. Essas representações são sombras das ideias divinas e a memória serve para fixar em nossa mente essas imagens. Através de exercícios de memória podemos colocar em nossa mente um grande número de reflexos das coisas e das ideias divinas, o que torna mais sólida nossa capacidade intelectiva e mais eficaz nossa ação sobre o mundo. Para atingir esse objetivo é que Giordano Bruno foi grande estudioso e professor de mnemônica, que é o estudo de técnicas para facilitar a memorização.

A imaginação teria como função o entendimento do universo, pois não teríamos como entender o contato com o absoluto. Uma de suas citações nos ensina “A cogitação ou discurso natural, baseado em imagens das coisas, que é atividade racional ou intelectual, ou se dá em imagens ou não se dá em absoluto”. Temos a nossa capacidade racional, e devemos desenvolvê-la, mas para além da racional existe a capacidade intuitiva, que será a real iluminação. A razão e a imaginação devem ser desenvolvidas em conjunto e a luz da sabedoria poderá entrar na alma pelo caminho aberto através do esforço em desenvolver essas capacidades, então o ser humano poderá se iluminar pela intuição (capacidade acima da racional).

A imaginação será uma ferramenta de transformação do homem, uma ponte com os deuses. Essa linguagem se baseia em imagens de tipo emblemático, caracteres hieroglíficos, com inspiração tipicamente astrológica. As configurações celestes são como as letras de um livro que expressa os conceitos divinos. Essa linguagem é simbólica, que contrapõe a nossa linguagem convencional e “prática” que não tem uma preocupação com o conteúdo (hoje mais vazio ainda devido a decadência moral em que estamos como sociedade); através desses símbolos, Giordano oferece um despertar das forças ocultas em nosso ser (virtudes), que são capazes de mudar a nossa existência, restabelecendo a saúde moral e física - tudo isso séculos antes de Carl Jung.

A arte da memória terá como diferencial a criação de figuras geométricas e uso de hieróglifos, que era bastante estudado entre os apreciadores do hermetismo. Para Bruno, a memória pode ser benéfica ou maléfica, pode provocar contatos elevados e sagrados com o Divino, mas também com a loucura; por isso a necessidade de um mestre, para que esse conhecimento não seja esquecido pelas novas gerações. O conde Moncenigo, que traiu Bruno, queria usar essas artes para fins pessoais e econômicos. Somente o mestre poderá guiar o discípulo para que o mesmo não “abra portais” desconhecidos, pois o universo está codificado e os símbolos serão as chaves para abrir esses portais - obviamente, o mestre guiará para as entradas que elevarão o espirito ao plano inteligível e a realidade.

O sistema mnemónico de Giordano é universal e, assim como seu pensamento filosófico, pode abranger o todo assim como a parte (o indivíduo), sendo particular o discípulo deve construir o seu próprio sistema de acordo com a sua própria realidade, os seus símbolos, a sua visão subjetiva do mundo. O início começa na própria subjetividade do mundo, nossas referências serão num primeiro momento familiares, mas com o passar do tempo e da prática da arte, novas referências serão adquiridas. Uma imagem chamará a outra e assim sucessivamente, desde o natural ou material chegaremos ao celeste - e por que não? - além dele.
Esse sistema não foi elaborado unicamente para fixar qualquer tipo de coisas que tenhamos que memorizar (embora sirva para isso), mas integra todos os planos do homem e o eleva até o desconhecido; ou seja, possui um fim transcendente. O filósofo também usou decanos do Zodíaco, muito importantes na astrologia Egípicia, oferecendo um ponto seguro de partida e um norte claro a seguir.


Homenagem a Giordano Bruno - Itália

Sobre Deus e a Ética

Giordano Bruno sustenta ainda que o universo é infinito, e como infinito não tem um centro nem uma circunferência.

Em seus estudos sobre ética, coloca o cristianismo como responsável por inverter os valores morais de sua época. O cristianismo transformou a crença sem reflexão em sabedoria, a hipocrisia humana em conselho divino, a corrupção da lei natural em piedade religiosa, o estudo em loucura, a honra em riqueza, a dignidade em elegância, a prudência em malícia, a traição em sabedoria e a justiça em tirania.
Deus, para o filósofo, não pode ser conhecido pelas suas consequências nem por suas obras, da mesma forma que não podemos conhecer o escultor pela estátua. Não podemos conhecer Deus porque Ele está muito além da nossa capacidade intelectiva. O caminho mais digno para nos aproximarmos de Deus é através da sua revelação.

Mas Deus como objeto de estudos da filosofia é a própria natureza. E como natureza Deus é o motivo e a origem do universo. É motivo porque Ele é que define as coisas que formam o universo. E é origem porque é Ele quem dá a existência para as coisas do universo. Deus é o intelecto universal que anima, serve de base e governa o mundo.

Deus é uma força e não um velho de barba branca


Sentenças:
- Deus é tudo em tudo, mas não em cada parte.
- O tempo tudo tira e tudo dá; tudo transforma e nada destrói.
- Não existe satisfação sem tristeza.
- A poesia não nasce das regras.
- Somos a causa de nós mesmos.
- O universo é uno, infinito e imóvel.
- Os homens mais devotos e santos, um dia foram chamados de asnos.
- Não é a matéria que causa o pensamento, mas o pensamento que causa a matéria.
- O homem não tem limites, e um dia se dará conta disso e será livre, ainda neste mundo.
- O amor torna o velho louco e o jovem sábio.
- A ignorância é a mãe da felicidade.


A vida do mestre de Nola, nos mostra a importância de acreditar que a evolução do Homem e a divindade estão em todos os locais, e seguir isso na sua prática diária. O mesmo não voltou atrás em suas afirmações, até porque estavam certas e para os grandes mestres era uma máxima, hoje atribuída a H.P. Blavatsky: “Não há nada superior à verdade”.


Como Giordano sofreu o martírio por manter sua palavra nos ensinamentos dos grandes mestres e por tê-la a ensinado em quase toda a Europa, é considerado ao mártir da liberdade de expressão. Que possamos, assim como esse filósofo, olhar para o céu e ter a certeza de que existem infinitos mundos e que Deus está em todos eles, assim como está no coração.

Máxima

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Como Deixar Velhos Hábitos para Trás?

Olá, Amigos, e FELIZ ANO NOVO!!!!!!!!!


Chegamos ao momento final do ano. Neste período, normalmente nossos olhos voltam a ter esperança em um futuro promissor, começamos a sonhar com um ano novo, onde vamos realizar muito do que programamos (mas não o fizemos) neste ano que passou. São as chamadas “promessas de fim de ano”.
Até aí, sem novidades; afinal, todo ano prometemos coisas e essas promessas ficam pelo caminho, mas é aí que mora o perigo.

Por que nossos desejos e sonhos ficam pelo caminho? Por que se tornam mais uma promessa não cumprida?

Podemos citar inúmeros fatores, mas uma situação é verdade: o ano muda,  mas nós não!


Um dos fatos que nos mantém no mesmo patamar do ano anterior é que os nossos hábitos são os mesmos e não temos consciência de muitos deles. Isso é ruim, pois acabamos agindo como robôs - mas, ao contrário de muitos filmes de ficção com robôs super eficientes, agimos de forma atrapalhada e desconexa com o que realmente somos e almejamos. Veremos como isso acontece a seguir.


O Hábito


   É classificado como maneira usual de ser, costume, regra para ação. Enfim, está sempre ligado ao modo como agimos no dia-a-dia: é uma maneira de SER e de ATUAR. Por isso, um hábito se traduz na forma como reagimos às situações do cotidiano. Quando adquirido, o hábito entra em nosso comportamento de forma automática, ou seja, torna-se um mecanismo que em alguns casos independe de nossa vontade. Exemplos: adquirimos o hábito de andar, de escovar os dentes… mas já pensou se em todas as manhãs tivéssemos que aprender a andar ou a escovar os dentes de forma correta? Isso seria uma enorme perda de tempo e energia

Dessa forma, temos um mecanismo inteligente que nos permite economizar energia e canalizá-la para o que é realmente válido. Então, quais seriam os grandes problemas gerados pelos hábitos?

 -Por não conhecer o seu mecanismo de criação, acabamos gerando hábitos negativos que nos afastam das nossas metas;

- Achamos que temos controle das nossas vidas;

 - Confundimos os hábitos com a nossa identidade.



Mecanismo dos Hábitos.


Os hábitos necessitam de um GATILHO, de uma ROTINA e de uma RECOMPENSA. Se verificarmos isso em nossa vida, veremos que em muito do que fazemos há o desejo de recompensa, de realização. Por exemplo: Se, ao beber, surge a necessidade de fumar, por que isso acontece? O gatilho é ingerir bebida alcoólica e a recompensa é a satisfação (prazer) que o cigarro vai proporcionar ao fumante
Ciclo de criação do Hábito



O Controle é uma ILUSÃO!!!!

Gostamos da ideia de ter controle sobre nossas ações e decisões, mas será isso verdade? Ou somos um amontoado de hábitos automáticos?


Vamos nos imaginar depois de um dia de trabalho e estudo, desejando estar em casa para relaxar, mas vem a lembrança de que precisamos revisar a matéria para a prova que se aproxima. Ao chegar em casa, tomamos banho, ficamos na frente da televisão enquanto conferimos as mídias sociais, mas aquela ação necessária e imprescindível de estudar vai ficando cada vez mais para depois… a noite avança e "decidimos" que é hora de dormir, e que amanhã será um bom dia para estudar. Neste exemplo, fomos vítimas do hábito da procrastinação, mas, para nossa mente, escolhemos cada atitude que tomamos; ou seja, achamos que decidimos, mas geralmente estamos seguindo os hábitos já consolidados.

Controle? Não passa de uma Ilusão.



Os Hábitos não nos definem!!!!

Muitas vezes, aquilo que fazemos de forma rotineira é classificado como "aquilo que somos", ou seja, achamos que faz parte de nossa identidade. Talvez você pergunte: “qual o problema disso?”

O problema, meus amigos, é acreditar que nossa identidade ou mesmo nossa própria existência está ligada à rotina, e um dia isso pode acabar, daí....como ficaremos?

Vamos ver um exemplo de uma mãe que se dedicou a cuidar dos filhos a vida toda, sempre direcionou sua energia para eles, tanto que até se esqueceu de seus desejos e anseios. Quando esses filhos crescem e agora ela tem que olhar apenas para si, o que surge na sua frente? Em muitos casos, o NADA. Daí a tendência a se achar "incompleta" e "inútil" ou de "não ter um significado na vida" se torna cada vez maior, e a possibilidade de depressão é grande. Isso vale para empregos, namoros, casamentos, fases da vida, para aqueles que acham que sempre tem que "dar sua opinião em tudo"… acabamos nos "viciando"em algum hábito da vida e nos identificamos com ele a tal ponto que parece que não somos mais os mesmos (e nem mesmo dignos da felicidade) sem ele.


A verdade é que não somos nossos hábitos; pelo contrário, eles são ferramentas para que possamos descobrir a nós mesmos.



Os hábitos como ferramentas de transformação.


Podemos gerar hábitos positivos e, dessa forma, ter uma excelente ferramenta para alcançar nossas metas e objetivos. Para isso, devemos entender bem o nosso propósito de vida, o que buscamos, o que nos realiza...
Vamos a um exemplo para a criação de hábitos:

Estudos apontam que necessitamos da prática de 21 a 30 dias para gerar um hábito. Mas, para “ter vontade" todo esse tempo, é essencial descobrir nossa MOTIVAÇÃO, ou melhor, o PROPÓSITO AO QUAL QUEREMOS CHEGAR. 

Construir a nós mesmos: Eis a missão!!!
Sabemos que o hábito necessita da RECOMPENSA; no caso do exercício físico, temos o bem-estar, a sensação de prazer causada pela liberação de endorfina, enfim...podemos ter várias recompensas biológicas e emocionais, mas muitas vezes não são o que realmente buscamos, por isso desanimamos e não prosseguimos.

Segundo Aristóteles, o que realmente buscamos em nossas atividades da vida é a FELICIDADE, e esse seria o maior BEM ao qual o ser humano deveria se dedicar. 

Então, se busco a felicidade na superação de mim mesmo, a atividade física será um grande desafio e então ganharei uma recompensa, mas breve, não um corpo digno dos programas de televisão que assistimos; contudo, ao saber que me supero a cada dia, essa seria a grande motivação e assim estarei usando os meus hábitos - criando alguns quando necessário ou aposentando outros -, pois agora tenho discernimento para utilizá-los e meu objetivo é maior do que o hábito. Não sou feliz porque faço exercícios, sou feliz através deles.

Com a meta clara em mente, usarei os hábitos como forma de construção de mim mesmo. 

Assim, poderemos ser felizes ao criar nossos filhos e ao vê-los partir, ao iniciar um relacionamento e também ao terminá-lo; poderemos ser plenos
durante a rotina do dia-a-dia e não num futuro que nunca chega; poderemos ser livres e não escravos dos nossos hábitos.

Feliz ano NOVO a todos, mas só será novo SE REALMENTE FORMOS NOVOS!!



Autor: Edmilton C. Furtado

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O que faz um herói?

 
Olá!
 
Você sabe o que Harry Potter, Katniss Everdeen e Frodo - personagens de histórias fantásticas - tem em comum?
Eles são considerados heróis e possuem uma legião de fãs pelo mundo, mas oque será que faz com que muitos de nós se identifiquem com esses personagens?

 Joseph Campbell, que foi um grande estudioso dos símbolos da humanidade, nos ensina sobre o mito do herói. Símbolo este que todos carregados e desejamos em nossas almas.

Veja o vídeo onde explica o Herói de mil faces.

 
https://youtu.be/Hhk4N9A0oCA

 
Veja o vídeo abaixo, e descubra o herói dentro de você.



segunda-feira, 25 de abril de 2011

Elogie do Jeito Certo

              Recentemente um grupo de crianças pequenas passou por um teste muito interessante[1]. Psicólogos propuseram uma tarefa de média dificuldade, mas que as crianças executariam sem grandes problemas. Todas conseguiram terminar a tarefa depois de certo tempo. Em seguida, foram divididas em dois grupos.


              O grupo A foi elogiado quanto à inteligência. “Uau, como você é inteligente!”, “Que esperta que você é!”, “Menino, que orgulho de ver o quanto você é genial!” ... e outros elogios à capacidade de cada criança.

              O grupo B foi elogiado quanto ao esforço. “Menina, gostei de ver o quanto você se dedicou na tarefa!”, “Menino, que legal ter visto seu esforço!”, “Uau, que persistência você mostrou. Tentou, tentou, até conseguir, muito bem!” ... e outros elogios relacionados ao trabalho realizado e não à criança em si.

              Depois dessa fase, uma nova tarefa de dificuldade equivalente à primeira foi proposta aos dois grupos de crianças. Elas não eram obrigadas a cumprir a tarefa, podiam escolher se queriam ou não, sem qualquer tipo de consequência.

              As respostas das crianças surpreenderam. A grande maioria das crianças do grupo A simplesmente recusou a segunda tarefa. As crianças não queriam nem tentar. Por outro lado, quase todas as crianças do grupo B aceitaram tentar. Não recusaram a nova tarefa.

             A explicação é simples e nos ajuda a compreender como elogiar nossos filhos e nossos alunos. O ser humano foge de experiências que possam ser desagradáveis. As crianças “inteligentes” não querem o sentimento de frustração de não conseguir realizar uma tarefa, pois isso pode modificar a imagem que os adultos têm delas. “Se eu não conseguir, eles não vão mais dizer que sou inteligente”. As “esforçadas” não ficam com medo de tentar, pois mesmo que não consigam é o esforço que será elogiado. Nós sabemos de muitos casos de jovens considerados inteligentes não passarem no vestibular, enquanto aqueles jovens “médios” obterem a vitória. Os inteligentes confiaram demais em sua capacidade e deixaram de se preparar adequadamente. Os outros sabiam que se não tivessem um excelente preparo não seriam aprovados e, justamente por isso, estudaram mais, resolveram mais exercícios, leram e se aprofundaram melhor em cada uma das disciplinas.

Elogie o Esforço

            No entanto, isso não é tudo. Além dos conteúdos escolares, nossos filhos precisam aprender valores, princípios e ética. Precisam respeitar as diferenças, lutar contra o preconceito, adquirir hábitos saudáveis e construir amizades sólidas. Não se consegue nada disso por meio de elogios frágeis, focados no ego de cada um. É preciso que sejam incentivados constantemente a agir assim. Isso se faz com elogios, feedbacks e incentivos ao comportamento esperado.

             Nossos filhos precisam ouvir frases como: “Que bom que você o ajudou, você tem um bom coração”, “parabéns meu filho por ter dito a verdade apesar de estar com medo... você é ético”, “filha, fiquei orgulhoso de você ter dado atenção àquela menina nova ao invés de tê-la excluído como algumas colegas fizeram... você é solidária”, “isso mesmo filho, deixar seu primo brincar com seu videogame foi muito legal, você é um bom amigo”. Elogios desse tipo estão fundamentados em ações reais e reforçam o comportamento da criança que tenderá a repeti-los. Isso não é “tática” paterna, é incentivo real.

             Por outro lado, elogiar superficialidades é uma tendência atual. “Que linda você é amor”, “acho você muito esperto meu filho”, “Como você é charmoso”, “que cabelo lindo”, “seus olhos são tão bonitos”. Elogios como esses não estão baseados em fatos, nem em comportamentos, nem em atitudes. São apenas impressões e interpretações dos adultos. Em breve, crianças como essas estarão fazendo chantagens emocionais, birras, manhas e “charminhos”. Quando adultos, não terão desenvolvido resistência à frustração e a fragilidade emocional estará presente.

            Homens e mulheres de personalidade forte e saudável são como carvalhos que crescem nas encostas de montanhas. Os ventos não os derrubam, pois cresceram na presença deles. São frondosos, copas grandes e o verde de suas folhas mostra vigor, pois se alimentaram da terra fértil.

           Que nossos filhos recebam o vento e a terra adubada por nossa postura firme e carinhosa.


Grande Educador - Marcos Meier


terça-feira, 5 de abril de 2011

O Budismo e a Roda da Vida

             Em todas as antigas civilizações os símbolos foram considerados como portas que nos são abertas para o desconhecido, para uma compreensão intuitiva e para vivências que estão para além do que a nossa linguagem quotidiana expressa. Os símbolos são as pegadas do espírito, expressam as qualidades internas da Natureza. Cada um deles é um diamante com infinitas facetas, ou significados, e são a ferramenta indispensável para que a alma ascenda, degrau a degrau (símbolo a símbolo), àquilo que os místicos tibetanos chamariam «Luz que é Som, Som que é Luz - o Nirvana ou Espaço flamejante».




           Achamos os símbolos mais importantes do budismo na Escola Mahayana ou Grande Veículo, embora o Vajrayana ou Veículo de Diamante trate de fazer destes símbolos um instrumento de poder interno; e assim trabalha com eles em visualizações (mandalas), símbolos sonoros (mantras) e símbolos-gestos (mudras e danças rituais).


          Um dos símbolos mais importantes do Budismo Mahayana é a Roda da Vida e encontramo-la representada na entrada de quase todos os templos tibetanos. Nela estão representadas as correntes da existência fenomenal, Samsara, no seio da ilusão, Maya. Abraçando por completo a roda aparece um demônio de semblante pavo-roso. É Yama, o Senhor da Morte, que engole e dá nascimento, uma e outra vez, às criaturas dos seis modos de existência: deuses, demônios ou asuras, homens, animais, espectros esfomeados e moradores do inferno. Cada um deles é representado por um segmento da Roda, segundo se ilustra neste esquema.



A Roda da Vida


             Fora da Roda da Existência e da Dor encontra-se Buda, o Homem Verdadeiro e o Princípio da Iluminação, que assinala a outra Roda, muito mais bela, a Roda da Lei ou Roda do Dharma, de oito braços e que faz referência ao Nobre Caminho Óctuplo que pode libertar o Homem - só o Homem, segundo o Budismo, e não os outros cinco modos de existência - constituído por: opniões retas, intenções retas, palavras retas, conduta reta, meios de vida retos, esforço reto, atenção reta e concentração reta.

           Esta Roda simboliza, também, a Terra e a Roda do Karma que, segundo os seus próprios textos, mói de noite e mói de dia, pela qual transitam esforçadamente as almas de tudo quanto vive nela. O Buda é o Ser já livre das suas cadeias de sofrimento. Não podemos esquecer que em quase todas as civilizações antigas, a estrela de Oito Pontas representa Vénus.

           Tal como se indica no diagrama, no círculo mais exterior aparecem as Doze Nidanas, ou elos da cadeia, que arrastam para a existência e para a dor. Cada um dos elos, ou causas da existência, puxa por todos os outros, encerrando os seis tipos de seres vivos ou modos de existência. Todos os seres vivos giram sem cessar nos referidos estados de existência. No anel interior, o «d» do diagrama mostra como os seres sensíveis, como consequência do karma acumulado e das suas vitórias ou derrotas com o ego, se elevam ou caem na roda da vida, desde a condição de seres infernais à de um deus, desde a morada na luz divina - mesmo dentro da ilusão de samsara - até à descida na carne e no sangue dos seres vivos. No coração da roda de experiência e tortura, o egoísmo que a faz girar, é representado por:


1 - Um galo vermelho, símbolo da paixão e do sentido de posse.

2 - Um javali negro, os instintos obscuros e turvos.

3 - Uma serpente verde, emblema do ódio que envenena a vida.



              Estes três animais mordem mutuamente as suas caudas formando outro círculo, a avidez que leva ao ódio e este ao torpor e à obscuridade, que gera novos desejos... Constituem as causas - raiz (hetu) da existência não iluminada.

Quanto às causas, ou melhor, condições desta Roda da Dor, o círculo externo ensina, em doces imagens, os doze elos da cadeia. São as Doze Nidanas:

1 - A ignorância (avydia), simbolizada por uma mulher cega. A ignorância faz com que o homem erre na vida e que tenha uma imagem falsa do mundo e de si mesmo.

2 - A ação que trabalha e dá forma no plano da ilusão: samskara, representada por um oleiro. Pois é assim como modelamos o nosso carácter, o nosso destino, o karma, em definitivo. Com os nossos pensamentos, sentimentos e atos.

3 - Consciência (Vijnana), pois quando se abandona uma vida para entrar noutra é a consciência modelada que constitui o germen de um novo ser. Segundo os ensinamentos do Abidharma isto é válido não só de uma vida para a outra mas também de um dia para o seguinte e de um instante para o que lhe sucede. Está representada por um macaco que salta incansavelmente de ramo em ramo, pois assim dá mostra de uma consciência não educada, a que nos leva de uma ilusão para outra.

4 - O barqueiro é a personalidade: Nama-rupa, nome e forma. A forma é o barco e o nome o barqueiro. Ambos formam a personalidade que voga nas águas da ilusão, samsara. Em certas ocasiões aparecem dois barqueiros remando num mesmo barco para representar as relações entre o corpo e a mente.

5 - Os seis órgãos de sensação (chayadatana), que incluem os cinco sentidos e a mente. Faculdades que são como as janelas de uma casa através das quais percebemos o mundo exterior.

6 - Sparza, o sentido do tato, da nossa limitação no plano físico. É o contacto ou «chispa» que une os sentidos com o seu objecto e está representado como o primeiro encontro de dois namorados ou pelo olhar tentador de uma bela jovem.

7 - Vedana é a sensação, o resultado da união dos sentidos com aquilo que anseiam. Simbolizado por um homem atingido no olho por uma flecha. A flecha no olho não marca o carácter, mas sim a força da sensação e, talvez, as suas consequências dolorosas no futuro para aqueles que se deixam influenciar por ela.

8 - Mostra um bebedor que acaba o seu copo com avidez. É Trisna, a sede de viver. O amor, puro ou impuro; apego sensual aos objectos da vida comum ou amor pela humanidade de quem procura trabalhar pela sua libertação.

9 - Desta sede de viver surge o instinto de posse e conservação daquilo que desejamos, upadana, simbolizados por um macaco que recolhe frutos de uma árvore e os deposita num cesto.


10 - Bhava, que significa formação, é o agente kármico que conduz cada ser consciente a nascer num determinado modo de existência. Representado pela apaixonada união do homem e da mulher.

11 - Jaramarana, que significa o envelhecimento e a morte que nos acompanham minuto a minuto, tal como se vê aqui no homem que leva às costas um cadáver, envolto num sudário.

12 - Jati ou nascimento. A entrada na roda da existência representado por uma mulher grávida.


              Ensinam os sábios budistas que a figura monstruosa que aparece na Roda da Vida ainda que seja o senhor da morte, Yama, é um aspecto do Buda de Compaixão. Talvez seja, também, a própria Alma da Humanidade. Sendo que a referida Roda é, na realidade, um espelho que não faz refletir senão os nossos sentimentos, palavras e atos. É o egoísmo que torna nublada a imagem límpida que deveria aparecer em dito espelho, o superior de todos os espelhos, o da consciência. O espelho diante do qual cada um pronuncia o seu próprio veredito. Assim, o Primeiro Buda, Adi Buda, ou Luz Pura, reflete-se nos seis reinos da existência e a cada um deles aporta-lhes a salvação que necessitam dado o seu caráter. Não podemos esquecer que, ditos reinos vivem na mente humana, como presente, como passado ou como futuro. Vejamos que aspecto assume a Luz - uma salvadora em cada um destes reinos. É Avalokiteshvara, «o Senhor que olha desde o alto com bondade» que se submerge na roda da Dor para «salvar os infinitos seres». Conta a lenda que Avalokiteshvara, ao descer o olhar onipenetrante de sabedoria num mundo sofredor, sentiu uma compaixão tão profunda e foi tão ardente o seu desejo de conduzir todos os seres até à libertação que a sua cabeça estalou em múltiplas cabeças e do seu corpo saíram mil braços e mil mãos como uma aura radiante. E em cada uma das suas mãos abriu-se um olho, porque o seu impulso de compaixão também é de sabedoria. E o olho de Deus chega até ao coração da mais ínfima das existências.


1. No reino dos bem-aventurados deuses, Avalokiteshvara, ou o Buda, aparece com um alaúde, «para que os tons do Dharma despertem os deuses» e também para que não esqueçam que eles, que conhecem a medida de todas as coisas, não devem afastar-se da harmonia universal. É o Budha branco e o seu nome é «o Poderoso das Cem Bênçãos».



2. No reino dos furiosos Asuras ou Titãs, aparece com a espada em chamas. A ardente ânsia do Justo que combate a inércia e as forças do mal. Em vez de lutar pela conquista dos frutos da árvore que concede todos os desejos (Kalpataru), ensina-lhes o nobre combate para conseguir os frutos do conhecimento e libertar-se de todos os desejos. A espada flamejante é o símbolo da sabedoria que extingue a obscuridade da ignorância e rompe as ataduras da ilusão. É o Buda que ensina que o Nirvana não se mendiga, mas sim toma-se de assalto. O Buda dos Guerreiros, dos kchatryas que juraram defender os demais. É o Buda Verde e o seu nome é "Bem Heróico".


3. No mundo dos homens aparece como Buda Amarelo e o seu nome é «Leão do tronco dos Sakyas». Aparece em posição meditativa outorgando paz e segurança; como o sábio a quem todos podem expor as suas dúvidas e como o forte que a todos pode amparar. Em outros tankas aparece com bastão e bolsa de esmolas, como asceta. Ensina aqui que aquilo que é propriamente humano é ser filósofo, não apegar-se ao que nos rodeia. É o eterno peregrino que socorre os caminhantes e lhes ensina o caminho da libertação. Para o budismo, a salvação só é acessível a partir deste modo de existência e não desde outros, havendo que esperar encarnar como homem para que se abra a porta da libertação. O homem é um ser que escolhe e só o que escolhe e decide percorre o caminho, passo a passo. Como ensina o lama Angarika, o reino dos homens é o do esforço e da atividade consciente do seu fim.

4. É o reino dos espíritos sem repouso das paixões insatisfeitas, fantasmas num mundo de sombras. Aqui o Buda transporta um recipiente com objetos celestiais, inclusivamente com comida e bebida dos céus, o único que pode acalmar os que vivem neste inferno. Pois toda a outra comida e bebida converte-se em fogo, todo outro desejo satisfeito converte-se num desejo mais ardente ainda. É o Buda de cor de fumo, pois aos habitantes deste mundo custa-lhes discernir um Buda. E o seu nome é Dharmaraja, rei e guardião do Justo.

5. No reino dos animais transporta um livro. Pois é o conhecimento que liberta do medo próprio deste reino. O livro também representa a linguagem articulada e a capacidade de formular pensamentos que uniria as almas deste reino ao Dharma. O livro é também a cultura que faz deixar de ser bruto e ser escravo dos instintos. O Buda assume o nome do rei dos animais, «Leão indestrutível» e a sua cor é o azul.

6. No mundo dos pretas, ou demónios esfomeados, aparece como Buda vermelho e aparece sob o nome de «boca em chamas». A única coisa que pode alegrar a quem se acha nesta situação de contínua necessidade interior são as labaredas vermelhas da fé.

             O budismo ortodoxo considera estes seis reinos de existência como o «lugar» e estado de consciência em que encarnam as almas. Quer dizer, nesta vida pode-se encarnar como um homem e segundo o resultado dos seus méritos e deméritos pode-se fazê-lo como um deus ou como um animal ou, o que é pior, um espírito esfomeado na escuridão. No entanto intérpretes mais profundos destas doutrinas, como o Lama Chogyam Trungpa, fundador do movimento filosófico Shamballah, ou um século antes, H. P. Blavatsky, ensinaram que os referidos reinos são estados de consciência dentro da alma humana e, portanto, não são vidas sucessivas. Segundo estes sábios não existe involução para a consciência, sendo que esta avança sempre no seu caminho de perfeição, umas vezes livre e outras curvada sob o peso do karma. Quer dizer, a alma cada vez sabe mais, e é melhor, vida após vida, embora às vezes atravesse desertos e outros jardins. A alma humana, como muito bem expressara Platão no Fedro, já não pode converter-se num animal. Tanto no hinduísmo como no budismo filosófico, ditos «animais» representam estados psicológicos ou virtudes. Encarnar num elefante é símbolo de encarnar num futuro sábio; fazê-lo num tigre, num kchatrya ou guerreiro e assim com os restantes animais.
Buddha


             Assim, a alma humana move-se, projeta ou identifica-se com diferentes estados mais luminosos ou mais sombrios, identificados com estes 6 reinos da existência. E num só segundo poderia passar de um a outro. Existe uma morte e um renascimento em cada mutação da alma, em cada nova experiência verdadeiramente assimilada. E os distintos Budas que aparecem nesta Roda da Vida simbolizam a «chave da salvação» em cada um destes estados de consciência. Como já explicámos, se a consciência está num estado luminoso, deve manter a harmonia, se está num estado de «de deus de combate» (Asura), deve esforçar-se ardentemente numa acção que esteja dentro do Dharma, da Lei e não na perseguição de frutos egoístas. Se a consciência se encontra num estado «humano», deve ser filósofo, peregrino nas sendas da vida, tratando de ir sempre para a frente, procurando a verdade... E assim sucessivamente.
           Sou consciente de que um símbolo, quando é interpretado, exibe só uma sombra mental da quinta-essência luminosa que guarda, e que milhares de páginas não fariam senão afastar a leitor do ensinamento que um só símbolo pode fixar na alma. Mas também é certo que, sem ninguém que nos introduza no mundo maravilhoso dos símbolos, estes permanecem mudos... esperando.


José Carlos Fernández

Director da Nova Acrópole Portugal

quarta-feira, 9 de março de 2011

"Somos todos ciborgues", diz filósofa digital

DIÓGENES MUNIZ

ENVIADO ESPECIAL A HANNOVER

Como boa parte daquilo que bomba na web na velocidade da luz, Amber Case é jovem (tem 24 anos) e se apresenta com um trabalho potente, porém embrionário (o primeiro livro dela deve sair ainda neste ano).


Na revista "Fast Company", uma das publicações sobre inovação e tecnologia mais respeitadas, a jovem foi descrita como "nativa digital do futuro que viajou de volta no tempo para nos ajudar a descobrir como pensar".

Suas palestras foram dadas, por exemplo, ao ciclo de conferência TED (Technology Entertainment and Design) ou ao prestigioso Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT. Nelas, Case prega que a tecnologia humaniza ao mesmo tempo em que nos dá status de ciborgues.
 
 
Não somos como Robocop ou o Exterminador do Futuro", diz, "mas somos ciborgues toda vez que olhamos para uma tela de computador ou quando usamos os dispositivos dos nossos celulares".


Somos ciborgues "mentais", portanto. Em vez de usarmos pernas robóticas, temos supercelulares, extensões da nossa capacidade de ouvir e se locomover.

Afinal, se precisarmos ficar frente a frente com alguém que está do outro lado do mundo, basta pegar um iPhone e acessar o dispositivo de teleconferências FaceTime. É o equivalente, diz Case, a uma viagem no tempo e no espaço.

A maioria das pessoas não enxerga o tamanho da mudança comportamental que isto traz, segundo a jovem filósofa, porque os itens tecnológicos estão cada vez mais orgânicos. Leia aqui a entrevista completa com Case.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sânscrito - A Linguagem dos Deuses

Sânscrito - A Linguagem dos Deuses




Escuta, ó Senhor das águas misturadas! o imóvel dispersa-se. E o movente permanece.

Basavanna (século XII)

A LINGUAGEM DOS DEUSES

         O sânscrito é uma língua clássica da Índia. É a língua litúrgica do Hinduísmo, do Budismo e do Jainismo e uma das 23 línguas oficiais da Índia. Sendo uma das mais antigas línguas indo-europeias, a sua influência é sentida nos principais idiomas ocidentais, estando na origem de quase todas as línguas europeias à excepção do finlandês, estónio, húngaro, turco e basco.

        Tal como o latim e o grego na Europa Ocidental e o chinês clássico na Ásia Oriental, o sânscrito é considerada a base da maioria das línguas Indianas e está também presente em diversas línguas actuais não indianas como o vietnamita e o tailandês, entre outras. Sir William Jones, em 1786 num discurso proferido na Asiatic Society em Calcutá, considerou mesmo que o Sânscrito, o Grego e o Latim terão surgido de uma fonte comum, entretanto perdida.

        Sem dúvida que parte significativa da expansão do sânscrito e da propagação do seu impacto se deve ainda ao facto de as escrituras budistas, nomeadamente as da linha Mahayana, terem adoptado esta forma escrita. Por esta via, o impacto da língua estendeu-se ao Tibete, China e outros países do extremo oriental da Ásia.

      A sua presença na vida quotidiana do sub continente é ainda bem patente, tendo sido adoptado para o hino e diversos outros marcos de soberania e instituições, evidenciando assim uma função de língua franca e unificadora entre todos os indianos, contribuindo para cimentar o sentido de nacionalismo pós-independência. Em acréscimo, todas as descobertas e desenvolvimentos científicos indianos são denominados em sânscrito, à semelhança do que no ocidente se regista com o latim e o grego.

      Apesar de ser primeira língua de menos de 10.000 pessoas e ser segunda língua de cerca de 200.000, o sânscrito é considerado o repositório das escrituras Hindus, e a sua utilização é comum em rituais religiosos e mantras. Actualmente, diversos esforços estão a ser realizados para tornar o sânscrito uma língua viva e utilizada de forma quotidiana em maior escala.

     Pela sua sintaxe, o sânscrito é considerado uma língua ideal para programação informática, sendo a sua estrutura regular e matemática considerada uma característica assaz valiosa para esse efeito.

HISTÓRIA

         «O sânscrito é uma linguagem para expressar Aquilo que transcende as palavras», o que pode levar a que, a uma única palavra, corresponda uma ideia complexa (p.ex.: karma, samsara e tantas outras), advindo daí nítidas dificuldades de tradução. Assim sendo, o conhecimento do sânscrito mostra-se essencial para aprofundar a compreensão da religiosidade e filosofia de origem indiana.

         A palavra «sânscrito» pode significar «aquilo que foi bem feito», «refinado», «consagrado», «santificado» e assume popularmente o significado de «a linguagem dos Deuses». O seu alfabeto - o devanagari, «a escrita da cidade dos Deuses» - é uma escrita alfabeto-silábica usada desde o século XII por diversas línguas como o hindi, o kashmiri e o nepali, entre tantas outras. No entanto, virtualmente, todos os sistemas de escrita do sul da Ásia terão sido usados para a produção de textos em sânscrito sendo os mais antigos (século III a.C.) atribuídos ao imperador Ashoka, um dos grandes impulsionadores do budismo.

          Entre as formas simplificadas de sânscrito destaca-se o Pali, língua na qual foi registado o cânone do budismo theravada.

          O sânscrito pode ser dividido em Clássico e Védico e o mais antigo tratado gramatical que se conhece, Ashtadhyayi da autoria de Panini, remonta ao século V a.C., tendo sido, posteriormente, comentado por diversos autores, entre os quais Patanjali. No entanto, o desenvolvimento do sânscrito terá sido iniciado cerca de 1500 a.C., sendo nesta língua os manuscritos mais antigos da literatura universal - os Vedas. É de salientar que existem evidências que apontam para uma tradição oral «védica» anterior à forma escrita, consequência directa do facto de estes ensinamentos serem considerados incriados e eternos, «a linguagem da realidade» e revelados aos rishis - indivíduos dotados de uma capacidade especial de percepção destes sons eternos. Cada palavra apresenta, assim, um significado inato e eterno, mostrando o seu poder místico quando correctamente pronunciada. Consequentemente, um aprendizado ou repetição errónea dos Vedas era considerado um pecado potenciador de nefastos e imediatos efeitos. Trabalhos recentes, nomeadamente o de Vagish Shastri, propõem o desenvolvimento de um método mnemónico de aprendizagem do sânscrito, baseando-se, para isso, numa gramática de características matemáticas.

          O sânscrito védico apresenta claras semelhanças com o Avestan, base das escrituras do Zoroastrismo. O núcleo dos quatro Vedas - «conhecimento» ou «corpo de conhecimento», em sentido literal - é composto por mantras e textos religiosos.

          O Rig Veda («Sabedoria dos Versos») regista um estágio prematuro da religião védica e inclui referências a eventuais acontecimentos históricos, sendo a sua composição datada entre 1700 a.C. e 1100 a.C. No entanto, diversos teóricos, tais como Bal Gangadhar Tilak, encontram neste texto referências astronómicas tão antigas quanto o ano 4000 a.C. É ainda no Rig Veda que se apoiam diversos opositores da Teoria da Invasão Ariana, segundo a qual, os habitantes dos vales do Indus e do Sarasvati - dravidianos - terão sido invadidos e dominados por nómadas - arianos. No entanto, de acordo com o Rig Veda, estes dois povos sempre coexistiram. Desde a sua redacção, o Rig Veda tem sido dividido em duas versões: o Samhitapatha (para recitação) e o Padapatha (para memorização).
 
          A tendência interpretativa actual do Rig Veda baseia-se numa vertente mais simbólica e mística, assente em processos transcendentais, numa perspectiva infinita do universo e numa categorização do conhecimento em inferior (relacionado com os objectos) e superior (relativo ao sujeito que percebe).

          O Sama Veda («Sabedoria dos Cânticos») é o segundo mais importante Veda e consiste, principalmente, de hinos retirados do Rig Veda e destinados a serem cantados pelos sacerdotes no decorrer das cerimónias religiosas. Existem, no entanto, algumas variações entre os textos de estes dois Vedas, sendo que a versão constante no Sama Veda aparenta ser mais antiga e original que a do Rig Veda.

           O Yajur Veda («Sabedoria dos Sacrifícios») inclui textos religiosos relativos à liturgia, rituais e sacrifícios e execução dos mesmos. Existem duas samhitas (colecções), Shukla e Krishna, incluindo, o primeiro, comentários adicionais e instruções detalhadas. O Shukla Yajur Veda apresenta duas variantes «regionais» e do Krishna Yajur Veda existem quatro versões. É nesta última colecção, Krishna Yajur Veda, que se pode encontrar o conhecido Gayatri mantra:

Om, bhuh, bhuvah, svah

tat savitur varenyam, bhargo

devasya dhimadhi, dhiyo yo nah pracodayat.

Om svah

(«Meditamos sobre a Luz Divina do adorável Sol da Consciência Espiritual que estimula nosso poder de percepção espiritual.»)

            Para além da perfeição linguística decorrente da sua característica matemática, já anteriormente mencionada, algo mais faz com que o sânscrito perdure, apesar dos milénios decorridos, e ganhe um novo interesse no mundo actual. A capacidade que esta língua mostra para excitar o cérebro é complementada com o poder revelado para tocar o coração de todos quantos a ouvem, estudam e praticam


          O Atharva Veda («Sabedoria dos Sacerdotes Atharvan»), do qual existem actualmente duas versões, terá sido composto por dois grupos de rishis - apesar de algumas tradições atribuírem parte deste Veda a outros rishis - e representa uma tradição paralela e independente da do Rig Veda e do Yajur Veda. Dos principais rituais cobertos pelo Atharva Veda destacam-se os de casamento e funeral. É também no Atharva Veda que surgem as primeiras referências médicas na literatura indiana, sendo identificadas as causas de diversas doenças e apontada a sua cura. Alguns autores defendem mesmo a teoria de que este será um dos textos mais antigos em que é descrita a função e utilização de antibióticos. Em acréscimo, este texto apresenta o relato de diversos conflitos e regista, de forma descritiva, diversas armas utilizadas nos mesmos. Parte das mais significativas contribuições para o pensamento filosófico ariano surge neste Veda, sendo abordada, nomeadamente, a origem das coisas. Sendo um ensinamento transmitido, inicialmente, de forma oral, o mesmo terá sido corrompido por adições posteriores. No entanto, os hinos do Atharva Veda são consensualmente datados dos séculos XII a.C. a X a.C. (reinado dos Kurus).

            O final do período védico é marcado pela composição dos Upanishads (comentários aos Vedas que pretendem expressar a essência dos mesmos, elaborados nos séculos VII a.C. a V a.C.), revelando estes um conteúdo activador de uma mudança de orientação filosófica e religiosa, passando a ser privilegiado o ascetismo interior, o ser humano e as antigas técnicas de yoga e meditação dos drávidas em detrimento do culto exotérico e ritualístico ariano, como forma de ultrapassar maya (a ilusão da realidade percebida pelos sentidos) e unir atman (a alma) a Brahman (a verdade suprema).

          A forma mais significativa de Sânscrito Clássico, pós-Védico, surge nas grandes epopeias hindus Mahabharata e Ramayana.

          O Mahabharata (A Grande Índia), inicialmente denominado Jaya (Vitória) e iniciado nos séculos IV a.C. ou III a.C., é o maior épico da literatura mundial (oito vezes a Ilíada e a Odisseia juntas) e inclui a obra mais conhecida no ocidente, o Bhagavad Gita (o Canto do Abençoado). Tradicionalmente, a sua autoria é atribuída a Vyasa. Contudo, este terá sido o autor apenas da primeira composição tendo esta recebido acréscimos ao longo dos séculos, tornando-se assim num autêntico repositório cultural, mitológico, religioso e filosófico de toda a cultura hindu. Em termos gerais, a obra retrata o conflito registado entre os Pandavas e os seus primos Kuravas pelo controlo de Hastinapura e o papel de Arjuna e do seu mestre, Krishna, no desenrolar dos acontecimentos.

Bhagavad Gita

         Apesar de menor que o Mahabharata, o Ramayana (O Caminho de Rama) é equivalente a duas vezes a Ilíada e a Odisseia juntas, sendo a sua autoria atribuída a Valmiki (século IV a.C.). Tal como o Mahabharata, também o Ramayana evoluiu primeiro sob a forma oral, tendo sido passado à escrita muitos séculos depois da sua origem. O Ramayana ajudou ao desenvolvimento de uma religião mais popular e devocional e mais liberta dos sacrifícios. A obra retrata o exílio de Rama (inicialmente príncipe e, mais tarde, identificado com a sétima encarnação de Vixnu), o rapto da sua esposa, Sita, por Ravana, rei dos Rakshas, bem como a guerra de Lanka. A narrativa apresenta-se ainda como um conjunto de preceitos morais e éticos, orientadores da conduta e relacionamento humanos, assentando na observância do dharma.



A IMPORTÂNCIA DO SÂNSCRITO

Para além da perfeição linguística decorrente da sua característica matemática, já anteriormente mencionada, algo mais faz com que o sânscrito perdure, apesar dos milénios decorridos, e ganhe um novo interesse no mundo actual.

A capacidade que esta língua mostra para excitar o cérebro é complementada com o poder revelado para tocar o coração de todos quantos a ouvem, estudam e praticam. É esta ligação linguística com os arquétipos, este acesso directo aos planos superiores, esta via dupla - da cabeça e do coração - que identifica verdadeiramente o sânscrito como a "linguagem dos deuses".



Pedro Denis

Fonte: http://www.nova-acropole.pt/curso.html



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